domingo, novembro 26, 2006

Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny
(9/8/1923 - 26/11/2006)

sexta-feira, novembro 24, 2006

... para quem vê!

"Se podes olhar, VÊ; Se podes ver, REPARA."
José Saramago
in Ensaio sobre a cegueira

terça-feira, novembro 21, 2006



"As coisas que valem a pena não podem deixar de ter a pena que valem"

Miguel Esteves Cardoso

Uma segunda oportunidade


* Odiei o texto que se segue com tanta força que acabou por ficar encrustado no meu coração! Odiei-o porque se cruzou comigo e me deixou de fora da história. Porque se encontrou escrito por outra mão nas páginas de um livro que não era meu. Odiei o texto que se segue porque me pôs num lugar que não queria quando andava a lutar pelo meu lugar. Odiei-o porque quando o vi antevi a tal oportunidade que agora sei que foi merecida. Odiei-o porque era bonito, porque não fui eu que o descobri, porque também queria...
Já não o odeio. O tempo que cura tudo também tirou o texto da gaveta. Texto que copiei, naquela altura, envergonhada - não era para mim! O tempo também passou pelas vidas do texto que eu vi e mudou tudo. Trocou tudo de lugar. Graças a ele ouvi pela primeira vez a música de que fala... a vida é irónica... tanto significado na mesma canção que anos mais tarde apareceu do nada e me lembrou do texto.
Fica aqui hoje. Por hoje. Porque hoje sou eu quem o quer rabiscar nesse livro que, mais uma vez, não é meu!

Uma segunda oportunidade
Li recentemente, num jornal brasileiro, a história de um homem que foi atingido por um raio durante uma tempestade tropical. Um médico que passava pelo local, socorreu-o. Verificando que não era capaz de o reanimar (o infeliz sofrera de paragem cardíaca), afastou-se para pedir ajuda. Nesse momento o homem foi atingido por um segundo raio, e com isso, espantosamente, recuperou a consciência. Morto por um raio, ressuscitado por outro, aquele homem está certamente convencido que Deus lhe deu uma segunda oportunidade.
Lembro-me disto a propósito do amor. Pode haver, no amor, uma segunda oportunidade?
Fui colega, no Instituto Superior de Agronomia, de um guineense, vou chamar-lhe Mariano, que tendo sido oficial do exército português em Dili, ali conheceu e se apaixonou por uma jovem menina da aristocracia timorense. Os pais da menina, descontentes com o namoro, acusaram Mariano de estar ligado ao movimento nacionalista guineense e ele foi preso e deportado para Cabo Verde. Poucas semanas depois aconteceu o 25 de Abril e Mariano regressou a Bissau, onde o receberam como herói. A namorada de Mariano, entretanto, descobrira que estava grávida, sendo forçada pelos pais a casar com outro homem. Na sequência da invasão de Timor pelas tropas indonésias fugiu para a Austrália com o marido e o filho pequeno. Não conseguiu, porém, esquecer-se de Mariano. Alguns anos depois separou-se do marido e foi à pocura do grande amor da sua vida. Em Bissau disseram-lhe que Mariano havia partido para o Rio de Janeiro. No Brasil informaram-na que estava em Portugal. Em Lisboa, quando já pensava em desistir, encontrou na rua um soldado português que também servira em Timor. Soube através dele que Mariano estudava agronomia – e encontrou-o.
Conheci-a numa tarde de chuva. Era uma mulher de uma beleza sem exemplo, com uma cabeleira forte e negra, e uns olhos orientais que a dor tornara mais fundos. Aquela teimosia de amor deixou-me sem fôlego. “Se eu tivesse talento”, disse ao meu colega, “escreveria um romance com a vossa história”. Mariano riu-se: “eu escrevo”.
Alguns meses depois voltei a encontra-lo. Estava sózinho. Perguntei pela mulher. Mariano ficou aflito, “Voltou para a Austrália”, disse-me: “Não deu certo. Sabes, no amor não há duas oportunidades”.
“Toda a repetição é uma ofensa”, canta a mexicana Lhasa num disco de uma beleza assombrada pela melancolia, “La Lhorona”, que gosto de ouvir quando estou sozinho. “Não necessito amar, tenho vergonha”, explica Lhasa, “de voltar a desejar o que já tive”.
Eu entendo o que ela quer dizer. Mas acho que o meu coração duvida. Um raio mata, outro ressuscita. Não pode ser assim no amor?
José Eduardo Agualusa

segunda-feira, novembro 20, 2006



"I wonder if a memory is something you have or something you've lost"
Woody Allen

sexta-feira, novembro 17, 2006

Hmmm...


E o post continua! A pedido de várias famílias... eu & Pat & os 15 anos e o meu 1.º amor!!!

P.S. Benditos 10 anos passados! Viva os 25!!! (Já sabemos Piu - só tens 24!)

Este é só p'ró Luís!!!

Always on the bright side of the life!

quinta-feira, novembro 16, 2006

Smells like teen spirit


E foi... nem sei bem como, que me vi numa festa irada própria dos meus 15 anos! Com umas diferenças: muitos arquitectos, muitos emigras e nós os 3!!!
Daí nasceu a ideia: será que conseguimos? Será que somos capazes de nos lembrar da nossa vida há 10 anos atrás? Teremos ainda All Star? City Jeans? Parece que sim... e temos também ouvidos para a mesma música. Até gostamos, ainda, do Clube dos Poetas Mortos!!! E será que os The Cure eram mesmo góticos? Terá sido o Bob Marley o precursor do Pop? O Elvis era gay? O Jimmy Hendrix heavy metal?
Passaram 10 anos mas somos os mesmos. Menos tontos. Mais felizes. Foram-se as inseguranças (quais?). Foram-se dúvidas. Foram-se medos. Ficamos nós. Com a mesma capacidade de sonhar e mais dinheiro!!!
P.S. Porque uns copos à 4.ª feira ficam sempre bem... e uma intoxicação alimentar vem mesmo a calhar, ou não!
Quanto ao texto pendurado no placard: o combóio só passa 1 vez - temos pena!!!
Perfect Day
Just a perfect day,
Drink Sangria in the park,
And then later, when it gets dark,
We go home.
Just a perfect day,
Feed animals in the zoo
Then later, a movie, too,
And then home.
Oh it's such a perfect day,
I'm glad I spent it with you.
Oh such a perfect day,
You just keep me hanging on,
You just keep me hanging on.
Just a perfect day,
Problems all left alone,
Weekenders on our own.
It's such fun.
Just a perfect day,
You made me forget myself.
I thought I was someone else,
Someone good.
Oh it's such a perfect day,
I'm glad I spent it with you.
Oh such a perfect day,
You just keep me hanging on,
You just keep me hanging on.
You're going to reap just what you sow,
You're going to reap just what you sow,
You're going to reap just what you sow,
You're going to reap just what you sow...
Lou Reed

segunda-feira, novembro 13, 2006

Obrigada!


... pelas pintarolas... pelo chupa-chupa... pelo iogurte... pelo apple strudel... pelo chocolate quente... pelos diospiros! Obrigada por me terem inventado um dia de sol e terem-no passado comigo. Obrigada por me terem feito sentir a própria Anita, dos livros da Anita naquela história do Anita está doente... Obrigada pelas coisas parvas, pelas desgraças engraçadas, por me fazerem querer apenas rir! Obrigada por ficarem até o sono vir e não haver outra hipótese que não a de sonhar. Obrigada por partilharmos os fascículos do "Manual do Amor"... cada um com o seu. Porque assim o MUNDO NÃO DESABA... ESTÁ SEGURO!!!

segunda-feira, novembro 06, 2006


"Love is the answer and you know it for sure"
John Lennon

domingo, novembro 05, 2006

Doce Novembro

Fim de semana acabado. Nada a registar. Algum sono. Já Novembro. Cheiro a castanhas - tão bom! Encontro em casa romãs e diospiros. Voltamos aos chás, aos projectos de lareira e trivial. Já há vestígios de Natal... ainda que seja cedo. Está calor lá fora. Mas chove...

Abro um livro. Junto as letras. Descubro que no mundo há sempre quem já tenha encontrado palavras para dizer o que sentimos.

Então, sem tradução, aqui vai:
"Il faut dans la vie assaisoner l'amour d'un peu de jalousie" Regnard
Porque é sempre tempo de descobrir sentimentos novos que, às vezes, dão medo!

Se faz sol atravesso; se chove contorno.
Por puro acaso às vezes surgem frases destas que, sem ter muito sentido, podem significar muito.
Era uma frase banal. Constatava um facto. Jardim da Cordoaria. Se faz sol atravesso porque posso. Não enlameia. Não caem pingos das árvores que rolem pelo meu pescoço e provoquem arrepios. Os tacões não se enterram. Não escorrego pelo granito. Então atravesso.
Se chove contorno. Pois à volta – no contorno - há pedra. Não faz poças. Não há terras moles e o terreno é mais seguro.
Não será também assim por toda a vida?!
18.08.06.
P.S. ... pensamentos que dão na cabeça de quem apanha metro até S. Bento, sobe os Clérigos, passa a Cordoaria e desce a Restauração - depois de ver o Rio, claro!!!

sexta-feira, novembro 03, 2006



" No teu amor por mim há uma rua que começa..." Ruy Belo



" O coração guarda o que se nos escapa das mãos..."

* Por isso ele é o mais precioso dos cofres... por não deixar caír no chão os pedaços de vida que tornam única a vida de cada um de nós!
Há pessoas que aparecem na nossa vida para nos lembrar o que realmente somos. O que gostamos, o que nos faz sorrir, o que nos move. O que não suportamos!
Há quem chegue à nossa vida no momento certo. No momento mais bonito e seja melhor que qualquer dia de sol.
Há pessoas que reconhecem a importância do riso e da leveza e que, por isso, fazem questão de parecer girassóis na janela.
Há pessoas que têm olhos que brilham. Braços que arrebatam. Lábios que mordem e mãos que agarram.
Há pessoas que todos os dias trazem um laço com elas para ser desapertado em jeito de presente...
Há quem seja, para sempre, adolescente. E saiba como é grande a beleza de uma bola de sabão!
... porque tanta coisa me escapa das mãos!

Longe...




"Longe do olhar dos outros, respiramos ao mesmo tempo - como uma só engrenagem, única e bela. Resquício de memória que se apaga lentamente, sem que ninguém dê por isso."

Al Berto, in O Anjo Mudo

quinta-feira, novembro 02, 2006




“Se a vida não pode ser clandestina, que o seja ao menos o amor…”
Acho que era esta a essência da frase que li no livro que trouxe comigo de casa até ao trabalho . Frase que para mim bastaria para resumir a minha espécie de amor por ti e que justificaria, sem mais, a minha vontade de estar contigo… ainda que a isso não corresponda “nada de sério”.
Não é à toa que os meus rabiscos preferidos nos muros desta cidade ainda são os que se vêem por detrás do palácio num gigante “somos todos clandestinos”. É que isso de ser clandestino tem qualquer coisa de muito romântico…
Sabes o que Napoleão dizia? - Não se importe a lei com os concubinos… os concubinos não se importam com a lei.
Ficaria feliz com o simples acto de estares ao meu lado. Não quero o rótulo ou a fotografia -é certo que mais cedo ou mais tarde vou querer… berrar… sofrer, mas agora é sincero que não quero – fico-me com o teu cheirinho bom, com o teu beijo bom. Só de ti preciso perto de mim e pouco mais. Só quero o verbo. O acto ou efeito de ser feliz.
Claro que não fazes ideia de nada disto… e se depender de mim não vais fazer. Se soubesses o que acho de ti não te votavas a esse vazio enigmático do silêncio e partilhavas o silêncio comigo que gosto tanto de silêncio, quando partilhado.
Sempre que vais eu sinto a tua falta. Não é verdadeiramente falta porque nunca fizeste parte da minha vida, mas é uma vontade forte de que voltasses. Essa vontade faz-me deitar a cabeça na almofada para ouvir músicas patetas e pensar em ti. Desta vez não quero feitiços nem bruxarias… ou simpatias como lhes chamam alguns. Não quero cartas nem livros parvos de respostas tontas. Desta vez quero só que a vida aconteça. Que aconteça da forma que lhe apetecer e achar certa. Quero que seja o dia claro a encarregar-se de me aquecer a noite escura… sem pressa, sem planos, sem nomes sérios. As estrelas não têm nomes sérios. As estrelas nem têm nomes… e ninguém duvida que elas brilham. Como brilham!
Algures no tempo... adaptado!

quarta-feira, novembro 01, 2006

G9


Não podia deixar passar em branco a minha passagem a Tia Mafas. Portanto, à falta de melhor curtam a imagem, em jeito de alusão ao alargamento do G8 a G9! Eu sou a Mafalda. O baby tá claro... logo, Babes, decidam entre vocês quem é quem!

P.S. Eu voto na Dani para Miguelito!

I Love Chico


Ontem realizei um sonho. Ouviram bem. Ontem realizei um sonho. Hoje - inevitavelmente - sou mais feliz!
Coliseu cheio. De gente e de vontade. Coração cheio... por ouvir aquela voz, aquela música, aquele samba, mais na poesia que no pé! Aquele jeito tão meiguinho, privilégio de quem sabe amar por inteiro.
A magia fica comigo... que lá estive. Deixo aqui a mais bonita despedida:

João & Maria
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock
Para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim , me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim.
Chico Buarque
1977

Outono



"E o meu Verão não acabou…"

Ou acabou… dizem os astros que sim. Grita o tempo maluco. Ora chuva, ora sol. Chegara o fim temido, o triste fado, se não fosse eu amante deste Outono que faz cair as folhas e saír os casacos do armário, que me devolve ao cinema e aos cachecóis, que cheira a castanhas e a pôr-do-sol.

Seria, sem dúvida, o Outono o cenário escolhido para o meu romance. O frio pede o abraço. A pouca luz pede o olhar atento. Não tenho medo que o Verão se tenha ido… se com ele se for o meu amor de Verão então não era verdadeiro amor. O verdadeiro amor cheira a Outono!

O verdadeiro amor resiste às primeiras chuvas porque encontrou alguém para as partilhar pela janela… resiste ao quase frio porque sabe o quanto é bom aumentar 7 graus relativamente à temperatura exterior e, ainda jurar que foram 14.O verdadeiro amor gosta da mão dada… que assim deixa de ser fria!

Fica para trás o egoísmo pop e colorido. É hora da ternura. Da música calminha…

Dou as boas vindas ao Outono que aí vem… é 6.ª feira… quase acabada. Faz sol lá fora mas já se esconde. Quero sair daqui... sem medo do Inverno. Esperemos este tempo de mãos dadas e, assim, teremos bem mais quentes corações!

22 de Setembro 2006.