quarta-feira, setembro 29, 2010

meu querido mês de setembro...

É quando o Outono volta que a vida recomeça.
Em cada Setembro uma nova partida: Partida como começo. Partida como ida. Partida enquanto jogo.
Foi sempre assim. Mesmo quando as minhas pernas ainda haviam percorrido pequeninos caminhos. Setembro foi sempre novo. Cheirou a livros novos. Lápis por afiar. Borrachas brancas. Novos Professores. Às vezes novos amigos.
Esperanças e motivações renovadas. Baterias carregadas.
Mas hoje mesmo este Setembro já quase lá vai.
Estar longe parte-me ao meio. Baralha-me na pele a vontade de estar em casa e o sossego que me dá estar longe dela. Estranhamente, porque se repete sempre, já gosto do sítio onde estou agora. Já me rio com a D. Glória da limpeza de quem sinto a falta quando troca as 5 horas no meu gabinete por consultas médicas no Porto. Já gosto dos enchidos que o Sr. Neto traz de Miranda do Douro quando vai à terra e que dão motivos para um lanche. Já gosto do Comandante da GNR que me levou a dar um passeio para ver os limites da Comarca. Gosto do aprumo de dona-de-casa-exemplar-que-lembra-a-mãe da D. Isabel quando corta fatias de bolo. Gosto da côr do cabelo da D. Manuela. Gosto dos almoços com o Paulo e o Sr. João. Gosto dos lençóis de algodão imaculado que a D. Cremilde põe na cama desta casa. Gosto da 4.ª feira quando o Pedro vem. Gosto do silêncio ao fim da tarde e da côr com que o sol se põe por entre as serras. Adoro os cheiros a vinhas carregadas, a maçãs, a figos os quais nem me lembrava ter registado como aroma da infância.
E o tempo para mim comigo. Quando faço de mim a minha melhor companhia. Quando ninguém vai entrar para me atrapalhar os pensamentos ou os filmes. Quando em paz deito a cabeça na almofada e durmo o sono dos justos a pensar apenas o que me apetece. Quando devoro livros. Devoro gestos. Devoro imagens. Devoro gentes. Devoro sons e músicas e tudo, tudo, tudo o que me dá a deliciosa sensação de ser profundamente intelectual!

sexta-feira, setembro 24, 2010

Nunca parto inteiramente Vivo de duas vontades: Uma que vai na corrente, A outra presa à nascente Fica para ter saudades ...

Manuel Cruz

quarta-feira, setembro 15, 2010

dancing days

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

eros e psique
Fernando Pessoa

segunda-feira, setembro 06, 2010

agora. aqui.


Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII