quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Crónicas Olifradenses


Havia, decerto, qualquer coisa em Lisboa que tantas vezes me fez escrever sobre ela. Oliveira não é assim. É serrana, séria, crua e pasmacenta. Mas devolveu-me um prazer que nem sabia ter, porque talvez escondido na mais recôndita gaveta da infância: o deslumbre de ver a Natureza transmutar-se a cada estação que se avizinha; como se o ano fosse uma peça em quatro actos, escrava de um cenógrafo delirante que descobriu a transição perfeita.
Quando aqui cheguei os dias mostravam-se já curtos. O meu corpo mergulhava na piscina ao fim da tarde com a sofreguidão de quem sabia que não tardava muito esse calor. A retina fixava aquelas cores impossíveis e fugazes.
Depois vieram os ouriços a arranhar o tejadilho do meu carro. O cheiro e as castanhas que passaram a acompanhar os pratos do dia. O requeijão no ponto mergulhado em doce de abóbora.
O magusto e os lanches temperados a produtos da época.
Passei a sair do trabalho à noite. A fechar o edifício. A saber, enfim, o que é uma escalfeta. A desfilar casacos e botas e luvas e gorro e cachecol e guarda-chuva. Castigada por chuva e árvores nuas por onde atravessam cantos do vento. Granizo, gelo e depois neve.
Querendo sair cada vez mais cedo por ter cada vez mais medo de enfrentar o escuro daquela estrada.
O Inverno, do calendário, já só chegou no Porto. E por aí ficou. Que este povo sábio sabe que Janeiro, ainda que frio, traz consigo outra luz.
O Carnaval tardio iludiu a passagem deste mês que nem sequer foi interrompido.
O dia acordou com um sol bem disposto.
Ainda que aí venha frio e chuva e tudo... o pior já passou! Cheira a Primavera, ao ver os dias engalanarem-se e as árvores carregadas de magnólias que me trazem um cheirinho à minha terra.
Por amor às estações - às quais o acordo retirou maiúsculas - tirei das jarras os ouriços de Oliveira e dei lugar às flores...

Até chegar aqui tinha medo do "1.º acesso". Virados os seis meses sei, agora, que ainda bem!

domingo, fevereiro 20, 2011

essencial


ao domingo e sempre:

a luz da minha janela ao fim da tarde, o mar & chico.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

O V Império


E foi assim, ao olhar nos olhos daquele arguido, nascido a 25 de Abril de 1974, que vi um País...
"Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
Linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há papo-de-anjo que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós..."
Alexandre O'neill