sábado, janeiro 12, 2013

Cou cou, ma belle!

Desiludam-se os que pensarem que algum dia verão certos nomes neste canto da terra. Mas o nome de Coco Chanel não é um deles. A carteira de que tanto se fala - e que, diga-se, de publicidade não precisa - "costurei-a" eu para nos servir de postal nos 30 anos da minha melhor Amiga. É um símbolo de sofisticação e emancipação femininas e, como tudo na vida, também tem uma história. Adianto, aliás, e desde já que a gostava de ter oferecido em carne e osso, até pela graça da Carlinha partilhar com a Coco as iniciais do seu nome! Mas também gostava de ter uma, e tê-la seria bom sinal, uma vez que - digo sem hipocrisias nem falsos moralismos - não faz, efectivamente parte da minha lista de prioridades. No dia em que tiver uma Chanel outras coisas na vida não me faltam... Mas talvez já faça se me perguntarem quais os teus desejos de consumo - também, aqui, há que saber a pergunta. Mas adiante.
A carteira de que tanto se fala - esperando interpretar bem as palavras "clássica, preta, que dá com tudo" - dá pelo nome de 2'55,  porque nasceu em Fevereiro de 1955 (o que me faz dizer à minha mãe por várias vezes que ela devia ter a 2'56...) e foi desenhada com o objectivo de libertar as mãos das mulheres, até à data sempre ocupadas com malas de mão, e, desta forma, contribuir para a igualdade dos sexos!
Tudo seria diferente se uma profissional da moda dissesse: gostava de ter esta carteira porque tem esta história. Eu sei. Eu sei. Mas a história não é assim. E já não há nada a fazer. Também não tem mal nenhum querer só por querer, razão igualmente válida e, obviamente, inquestionável.

É que o que mais me incomoda neste episódio, que apenas tem graça pela graça que é ver um País com tempo para o discutir, não tem nada a ver com nada do que se fala. A moda é fútil naquilo que a futilidade tem de útil nas nossas vidas, é uma indústria, dá trabalho, vende sonhos, gera dinheiro e fá-lo circular. 
O que me incomoda é a leviandade com que, mais uma vez, se encara uma profissão (ou várias). Da ponta do cabelo à ponta do pé daquele video, tudo é amador, inclusive a retirada apressada de uma publicidade que tem de ter passado pelo crivo de alguém antes de ir para o ar. 

Profissional tem de ser sinónimo de trabalho, conhecimento, esforço, brio. Não pode ser ser um "Caldo Knorr", sob pena de se desvirtuar aqueles que efectivamente se empenham.

É o mínimo!


quinta-feira, janeiro 10, 2013

rules


-        Don’t say what you’re thinking, and don’t be too quick to act on what you think.
-        Be friendly to people but don’t overdo it. Once you’ve tested out your friends and found them trustworthy, hold onto them. But don’t waste your time shaking hands with every new guy you meet.
-        Don’t be quick to pick a fight, but once you’re in one, hold your own.
-        Listen to many people, but talk to few. Hear everyone’s opinion, but reserve your judgment.  
-        Spend all you can afford on clothes, but make sure they’re quality, not flashy, since clothes make the man—which is doubly true in France.
-        Don’t borrow money and don’t lend it, since when you lend to a friend, you often lose the friendship as well as the money, and borrowing turns a person into a spendthrift.  
-       And, above all, be true to yourself. Then you won’t be false to anybody else. 
Hamlet// Act 1; Scene 3// W. Shakespeare

terça-feira, janeiro 08, 2013

Agora sol na rua...

"Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida.
Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda
compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento.
Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos,
culpamos logo os governos.
Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para
nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos,
protestamos.

Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico
silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias
Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não
esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos,
que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não
estendem a mão à caridade.
O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto
da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.
Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam
honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns
sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão.
O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O
senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por
pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda
piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a
meter os beneméritos em tribunal.
Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.
Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá de certo, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o
estou a ver:
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo
que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa
interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos,
gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e
demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores
escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os
patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos
obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos
banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.


As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem,
penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de
enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas,
ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas
passaremos semdificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam,
por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste
acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à
sua frente  indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão
feia. Para a Batalha.

Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de
pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja
sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito.
Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha
de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca
vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão
presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor
Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis.
Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no
Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair.
Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás,
era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do
Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos
Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por
favor deixem de pecar.
Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E
tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este
solzinho.
Agradeçam a Linha Branca.
Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.
Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a
aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar
aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a
alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não
comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo
e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha,
e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos.
Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e,
enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade,
a Academia Francesa.
Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os
ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?
O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem,
não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que
ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma
que os processos importantes em tribunal a indignação há-de,
fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de
litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos,
como é nossa obrigação, felizes."


António Lobo Antunes, O Génio!




Talvez não devesse ser este o texto de abertura de 2013. Mas é!
E para além do sol um novo disco de Bowie... um bom presságio.