segunda-feira, março 28, 2011

E agora?

    Apesar e a propósito das palavras do Poeta. A hora de Verão olhou para mim e disse: respira. o pior já passou.
E agora, José?

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, março 16, 2011

Vidas



Porque há os dias.

Aqueles em que vejo chorar, rir, transpirar, tremer de nervos, de medo, as duas mãos suadas em ataques mútuos, a esperança daqueles miúdos no que eu decida, o alívio de uma desistência, o fim de um casamento, um muro que cai outro que fica, uma terra que se ganha pela força do tempo, uma casa de onde se sai sem levar muito...
Porque há os dias. Em que o corpo suplica por descanso e a cabeça me diz: mafalda pára!
Há notícias tristes de uma economia falida, da ameaça nuclear e de um total desrespeito por estas vidas pequeninas, comezinhas e simples... dizem eles.
Mas escolhi a vida. Tratar de vidas. Ouvi-las e tentar fazer coisas por elas.
Não há ordenado cortado, prestígio borratado ou discurso da treta que melindre o gosto a que sabe a esperança que este trabalho leva a certas vidas...

domingo, março 13, 2011

amores.express(iv)os


Sei... que seremos sempre um argumento premiado. uma forte história numa irrepreensível banda sonora. fotografia impecável. Sei... que seremos sempre um filme realista, ali a atirar para o europeu. às vezes lento. quase parado. a transbordar de fascinante quotidiano. porque seremos feitos desse amor normal cheio de nós, falado na nossa língua e que nos levará sempre ao tapete. por isso nunca te preocupes por te sentires despido, sem máscaras e sem chão... eu vou estar sempre aqui.

"Se o amor tem um prazo de validade, então que dure dez mil anos."



quarta-feira, março 09, 2011

quarta-feira de cinzas

... acabou nosso Carnaval

"... e no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar" [V.M.]